ENTRE A TÉCNICA E O SENTIR

INTERPRETAÇÃO

Hoje nossas Danças Tradicionais (projeção folclórica), tem dado extrema importância para a interpretação em sua época e ambiente vivido, isso é fantástico, pois a dança é arte, e a arte precisa ser sentida. Acredito que o bailar apresenta este estado de realização, de inovação e contato, seja do dançarino ou do público, a partir do momento que conseguimos nos situar no tempo em que ela foi vivenciada. ​​​​​​​

Vêem-se apresentações em que os bailarinos perdem a gestualidade natural espontânea da gente singela do campo, tornando-se mecanizados, repletos de movimentos bruscos e até militarizados, com expressões faciais “irtas” ou “caricatas”, distanciando-se do correspondente enlevo e simplicidade, conflitando muitas vezes com o próprio tema central que estão dançando. O gestual deve ser caracterizado dentro da geração/ciclo de cada dança, é a interpretação do gesto, ou seja, a expressão do corpo (postura corporal), daquilo que vem de dentro.

            A maior dificuldade que percebemos nas apresentações é a falta de expressividade, o que aqui apresentamos como expressividade é o casamento entre o sensível do dançarino e a técnica, articulando através da dança uma interpretação que poderíamos chamar de completa, onde o olhar caminha junto com o movimento e o público torna receptor desse acontecimento.

Achamos salutar saber: O que é dançar antes da dança; entender o que é sapatear, para depois sapatear; conhecer o cantar gauchesco, para depois interpretar nossos temas regionais e de Projeção Folclórica; saber o que é harmonia, para discernir o comportamento grupal, analisar o que é o entrajar, para vestir-se tipicamente.

Interpretar é sentir, sentir é arte, e se a dança não é interpretada ela não é denominada arte. Temos uma forte afirmação sobre considerá-la arte, a partir do viés de apresentar algo que transite entre dois importantes patamares: a técnica e a alma, ou seja, unir esses elementos a fim de viabilizar tanto o artista quanto ao público a honestidade do trabalho, dada pelo intermédio da interpretação. Sendo assim, a interpretação gera expressão, que transforma uma apresentação, ou seja, um momento íntimo do espetáculo que é transparecido para e com o público. Dessa forma, a dança é como um jogo, o grupo apresenta a sua intimidade para o público, e o público recebe a informação, mas também devolve esse jogo, com o olhar, com o sentimento, e se torna parte da apresentação.

Já disse Fidelino de Figueiredo em sua obra Falsificação da Cultura:

“Se mesmo a técnica, por séria e segura que ela seja, enquanto só técnica desacompanhada da ciência pura, pode conduzir a estagnação do pensamento, a cultura falsificada levará diretamente à morte da verdadeira cultura. A primeira condição para gozar da plenitude de uma obra de arte é a plenitude da vida que ela expressa, é a certeza de sua autenticidade”.
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Temos hoje grupos que perdem a noção da territorialidade na dança, transformando-se em rígida distância numérica, ignorando a geração/ciclo do tema, suas características e sua lateralidade, não conseguem traduzir o “belo” da simplicidade, presos em “movimentos marciais”, esquecendo de valorizar a explosão emocional humana, do bem dançar natural. Muitos têm sua ótica só voltada para o pictórico, o fantasioso, o efeito plástico, ao estético, com o prejuízo do autóctone, do original, do nativo, do puro.

Num cenário gauchesco em que deveria ser exaltado o crioulismo da sociedade nativa do meio rural rio-grandense, vêem-se demonstrações de gaúchos em movimentos rígidos, grupos bonitos em alinhamento, bailarinos sem naturalidade, por um artificialismo descabido, esquecendo o mais importante que é a postura espontânea do homem do campo e a individualidade livre do campeiro genuíno.

Muitos erroneamente bailam uma ou duas vezes, para se justificarem ao ato do concurso. Para uma melhor interpretação da dança, cada tema deve ter uma duração executiva que permita á um casal de bailarinos, ou a um conjunto, dar vazão simbólica aos sentimentos humanos (nuances de amor, desprezo, conquistas, simpatia, repudio, destreza...) através de sua gestualidade pessoal, proporcionando tranqüilidade de tempo à observações aos movimentos coreográficos e desenvoltura dos bailarinos, dentro do contexto significativo que a própria dança traduz, na sua espiritualidade formadora, consolidada pela sabedoria espontânea popular.

Dançar é muito mais que uma simples obrigação, esta na correção natural e harmoniosa dos movimentos e no prazer espiritual que se renova em cada passo com que se baila, no transcorrer continuado de um tema.

O importante é que preservemos nossas verdadeiras raízes e não nos percamos num limitado mundo de aplicação técnica, sem alma, sem sentimento nativo, sem vida e circunscrito a uma mediocridade de espírito não condizente a formação e grandiosidade da gente gaúcha.

​​Texto recolhido do E-book " Bailar Gaucho - Entre a Técnica e o Sentir." - Cristiano Silva Barbosa.


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